Mesa do Chef

«És do João Rodrigues?»

Os vencedores dos Prémios Mesa Marcada 2019


Os vencedores dos Prémios Mesa Marcada 2019


Em meados deste mês, na semana anterior à da cerimónia de entrega dos prémios do blog Mesa Marcada de Duarte Calvão e Miguel Pires, encontrei por acaso na rua um amigo com quem já não estava há algum tempo – e que não pertence ao meio gastronómico embora saiba que costumo participar na votação – o qual, a meio da rápida conversa, me perguntou:


«E então, és do João Rodrigues?»


Ainda a sorrir com a inusitada questão surgida do nada, comecei por lhe dizer que no passado até já tinha votado João Rodrigues, mas que este ano não o podia fazer – de acordo com as regras, só podemos indicar restaurantes que tivéssemos visitado ao longo do respetivo ano; e em 2019, apesar de ter comido pratos do João Rodrigues noutros sítios, não fui ao FEITORIA.


Entretanto, a conversa acabou por fluir por outros caminhos e tivemos que nos despedir sem ter sido possível voltar ao tema da votação.


De modo que não lhe cheguei a dizer que aquela pergunta – apesar de divertida – partia de um pressuposto errado.


É que isto não é um Benfica-Sporting.


Claro que há imensas pessoas, imensos clientes, para quem a ida a um restaurante é uma atividade grupal. A sua lógica – completamente legítima, aliás – é a de que vamos “aos de que gostamos”, vamos “aos nossos”. É uma atividade de pertença – a um grupo, a uma comunidade.


Contudo, para mim, a gastronomia não é assim tão básica, não é assim tão primária, não é assim tão linear.


Não são os bons contra os maus.


Não é como brincar aos polícias e aos ladrões. Ou aos índios e aos cowboys.


Nós contra eles.


Os nossos. E os outros.


Não.


Para mim, enquanto cliente, não há os do nosso clube (seja ele um chefe, um restaurante, uma região ou um estilo de cozinha) e depois os outros, os dos outros clubes, os nossos rivais, aqueles que têm que perder para que nós possamos ganhar.


Daí que este tenha sido o ano mais estranho dos Prémios Mesa Marcada. Foi aquele em que tivémos as melhores condições para assistir à cerimónia – que decorreu no anfiteatro da Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa. Mas foi também aquele em que mais se viveu um festivo ambiente de claque – vista cá de cima e atrás da última fila, não parecia tanto a audiência de um evento gastronómico, parecia muito mais a bancada da equipa da casa de um recinto desportivo! De tal forma que enquanto ia decorrendo a entrega dos sucessivos prémios – que culminaram novamente na consagração de João Rodrigues e do FEITORIA – só me vinha à cabeça a futebolística pergunta sobre de que chefe eu seria…


Porém, efetivamente e cada vez mais, não vejo os restaurantes como uma competição desportiva.


Para mim, ir a um restaurante não é sair de casa para ir apoiar a nossa equipa!


Não!


E, já agora, também não é propriamente para ir comer que vou a um restaurante – se fosse só para comer, comeria em casa.


Para mim, ir a um restaurante é como ir a um museu.


Ao qual vamos para conhecer o trabalho de um determinado autor.


Não havendo competições entre museus. Nem entre pintores.


Cada um tem o seu estilo, a sua abordagem, a sua identidade, a sua linguagem, a sua obra.


E o mais importante não é julgá-la, classificá-la, hierarquizá-la.


O mais importante não é escolher a melhor.


Nem é, sequer, apurar ou identificar aquela de que mais gostamos ou que é a nossa preferida.


Não!


O mais interessante é conhecer!


Conhecer o máximo possível!


E tentar aprender!


E tentar compreender!


Sem julgamentos.


Sem competições.


Tentando apenas apreender o melhor de cada espaço e de cada chefe.


Daí que, apesar de altamente gratificante – obrigado Duarte e Miguel pelo convite –, votar neste género de prémios seja igualmente, para mim, um exercício doloroso e injusto. Obriga a escolher uns e a preterir outros – quando gostamos de todos (ou quase); naturalmente, de uns mais por umas razões, de outros mais por outras. E doloroso ainda também, claro, porque, como todos os votantes, só podemos votar nos que visitámos nesse ano – sendo difícil (impossível mesmo), a cada novo ano, voltar a visitar todos aqueles de que mais gostamos ou de que mais gostámos, de norte a sul do país e nas ilhas, e, bem assim, conhecer igualmente cada um dos novos projetos que estão sempre a surgir.


De qualquer modo, todos estes prémios, todas estas estrelas, todos estes guias – que há hoje em dia – revelam-se de uma extrema importância.


Não são absolutos, claro – nenhum deles é.


Mas todos eles, apesar das suas inerentes limitações, nos dão pistas valiosas sobre aquilo que vale a pena conhecer!


 


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